06 a 10 de março de 2021

 

06

Março

Sábado

18 H

Abertura: diálogo com o público do Janela

com Kleber Mendonça Filho e Luís Fernando Moura

Esta é uma edição especial e experimental do Janela Internacional de Cinema do Recife, nossa edição XIII. Estamos fora do nosso mês habitual (o de novembro) e dentro das nossas casas, mas marcando presença no mundo e no Brasil triste que temos hoje.

Esse ano, somos levados a realizar essa edição usando o espaço da internet, durante a grande pandemia dos anos 20. Festivais irmãos no Brasil e no exterior têm se reinventado com novas ferramentas, e observamos isso com grande interesse.

Nosso desejo nessa experiência de março de 2021 é menos o de oferecer uma programação on-line e mais o de manter contato com todas e com todos, de poder conversar sobre o Cinema e oferecer uma troca, de talvez sugerir algumas imagens diversas que sejam de interesse.

Uma ideia que estamos bancando: estimular e provocar a realização de um pequeno ninho de filmes curtos e especiais que sejam frutos desse momento, e material de arquivo para o futuro. Convidamos realizadoras e realizadores para filmar ou acessar suas pastas de imagens pessoais para pensar a frase “Eu Me Lembro”.

Creio que isso reforça a preocupação de o Janela não querer ignorar nossos momentos históricos. “Eu Me Lembro” é um tema sugestivo num Brasil que não parece lembrar de muita coisa. Simbolicamente, nossa principal Cinemateca encontra-se num estado de descaso oficializado. A expectativa de receber esses filmes comissionados foi uma das alegrias dessa edição, e vê-los mais ainda. Obrigado Kaique Brito, Anna Muylaert, Nele Wohlatz, Lia Letícia, Sergio Silva, Bruno Ribeiro, tio Joao Pedro Rodrigues e tio Joao Rui Guerra da Matta. Viva os arquivos.

Com a Pandemia, esse virou um momento do mundo onde milhões se apegaram ao audiovisual como bóias salva-vidas, o audiovisual como informação, cidadania e entretenimento. Os streamers explodiram e já ocupam espaço inédito na vida das pessoas, os cinemas estão fechados, ou deveriam estar. A indústria se reinventa longe das salas de projeção e chama o que vemos de “conteúdo”. Algoritmos criam modelos artificiais-‘intuitivos’ e temos a certeza de que curadorias e seleções feitas a mão em mostras e festivais sempre farão uma diferença. Esse é um grande momento para tentar entender as imagens da Cultura.

O Janela sempre teve a preocupação de juntar as pessoas no Cinema São Luiz e no Cinema da Fundação Joaquim Nabuco, nossas aglomerações são lindas e empolgantes. Há muitos anos que tínhamos o desejo de voltar para o Teatro e o Cinema do Parque, que foi onde começamos naquela primeira noite em 2008. O Parque foi finalmente devolvido restaurado ao Recife em dezembro passado, depois de anos fechado. E é com esse outro espaço sem igual no Brasil que sonhamos poder aglomerar ainda mais gente em torno da Cultura do Cinema, num futuro próximo.

Para além de todas as questões graves trazidas pela pandemia, destaco que manter o público, obras e artistas distantes uns dos outros, fora de locais de convívio popular, tem um efeito negativo que ainda será avaliado na sua plenitude. Nesse momento do Brasil que vê a Cultura ser desmontada como estratégia política, sentimos ainda mais forte essa impossibilidade de nos juntar.

A artista Clara Moreira fez uma arte cheia de sentimentos para essa edição, a cada ano Clara oferece um pouco mais do Recife nessas imagens síntese da Janela. O meio do caminho entre duas margens do Rio Capibaribe, entre as pontes Duarte Coelho e a da Boa Vista, exatamente em frente do que entendemos ser o Janela na sua versão presencial. Clara escreveu essa semana no seu Instagram sobre essa imagem: “Sentimos tudo, Sentimos muito, e sentimos muita saudade”.

Kleber Mendonça Filho